Vamos exigir mais dos data centers

Não podemos deixar os apelos pelo “progresso” justificarem todo tipo de mal negócio para o nosso país. Sim, vamos falar de novo de data centers.

Assista no canal:

  • Construção de data centers. Esse é um tópico importante aqui no canal que eu sempre me incomodo quando eu trago à tona:
  • O que muita gente não entende (ou se esforça pra não entender) da minha posição é que: a rejeição a esse tipo de proposta é parte da negociação e luta por melhores termos para nós.

    • Não existe soberania tecnológica se estamos desesperados a aceitar qualquer tipo de negócio
  • Eu vou dar alguns motivos iniciais pra entender por que o papo simples de “você é contra o progresso” não se sustenta:

    • Somos realmente obrigados a aceitar qualquer termo num negócio, mesmo que desejemos algo? “Você não quer comprar a casa nesse contrato de financiamento? Você quer morar na rua então?”
    • Nós realmente precisamos de mais data centers? Ou apenas estamos alimentando a especulação e a bolha do mercado dos EUA?
    • A presença desses data centers fisicamente aqui se traduz em mais soberania digital para o povo brasileiro?
  • Mas hoje eu vou tentar demonstrar como outras pessoas estão lidando com isso e chamar atenção para o trabalho da frente parlamentar aqui do Rio Grande do Sul que fez um relatório sobre essa questão.

https://arstechnica.com/tech-policy/2026/07/philly-suburb-sure-build-that-data-center-but-first-meet-our-43-demands

  • O conselho da cidade de Plymouth na Filadélfia resolveu apresentar um plano com 43 exigências para a construção de um data center num terreno em uma antiga área industrial da cidade.

  • Eu trago aqui o resumo que foi apresentado no artigo da Ars Technica (por que o PDF original não estava acessível pra mim)

Ruído, luz e ar

  • Equipamentos instalados nas coberturas das edificações devem ser protegidos por barreiras acústicas (platibandas).
  • Deve ser realizado um estudo de ruído antes da construção para estabelecer os "níveis de referência de ruído e vibração ambiente" em diferentes horários do dia.
  • Um estudo de ruído pós-construção deve ser utilizado para garantir que o local permaneça abaixo dos níveis estabelecidos, especialmente em baixas frequências.
  • O local também não deve apresentar "qualquer nível de vibração perceptível que cause vibração ou ruído de trepidação recorrente em janelas, paredes, pisos, tetos ou objetos domésticos" nas proximidades.
  • Todos os equipamentos eletrônicos no local devem ser "blindados de modo que nenhuma interferência em transmissões de rádio, televisão ou outras transmissões de radiodifusão seja percebida nos limites da Propriedade em questão".
  • A iluminação externa deve atender aos padrões de preservação do céu noturno (Dark Sky Standards).

Aquecimento, refrigeração e energia

  • Um plano de impacto térmico deve identificar todas as fontes propostas de calor residual (tanto no ar quanto na água), demonstrar medidas de mitigação e proteção e, sempre que possível, prever o reaproveitamento desse calor.
  • Para a refrigeração, o local deve utilizar um sistema de "circuito fechado" que recircule o fluido refrigerante. O fluido refrigerante deve ser atóxico e "não deve ser captado de nenhum sistema público, conforme aqui estabelecido, nem descartado em cursos d'água, sistemas de esgoto ou de maneira que possa contaminar as águas subterrâneas".
  • É exigido um relatório anual de consumo de água, e o empreendedor não deve "captar água do Rio Schuylkill ou de outros cursos d'água, nem de qualquer sistema público de abastecimento", exceto para uso em banheiros e cozinhas. Também não é permitido o descarte de água no Rio Schuylkill, devendo ser elaborado previamente um plano de descarte.
  • O local deve ser "autossuficiente em energia por meio de geração própria, sem utilizar serviços públicos de energia para abastecer o Projeto", e deve "buscar utilizar tecnologia de geração de energia renovável — com preferência para a energia solar — na maior medida possível".
  • O local deve utilizar uma "microrrede de ar limpo ou um sistema de cogeração (CHP — Combined Heat and Power) para lidar com emissões e poluição".

Uso do solo e impostos

  • As edificações no local não devem exceder dois pavimentos de ocupação.
  • Uma trilha para pedestres deve conectar uma calçada da propriedade a um viaduto de rodovia interestadual próximo.
  • Árvores e arbustos devem servir de barreira para as partes da propriedade adjacentes a áreas residenciais, visando tanto a atenuação de ruídos quanto a proteção visual. O data center deve contratar mão de obra local e “comprometer-se a pagar salários e benefícios compatíveis com os padrões vigentes”.
  • O empreendimento deve contar com um “plano de descomissionamento” completo e devidamente registrado. Nenhuma licença será emitida até que o empreendedor “apresente garantia financeira em valor equivalente ao custo do descomissionamento, a qual ficará retida até ser liberada pelo Município”.
  • Por fim, o empreendedor deve assegurar que pagará todos os impostos e que “não tentará reduzir a carga tributária devida ao Município”.
  • Mas existe isso aqui no Brasil? Existe:

https://sul21.com.br/noticias/geral/2026/06/assembleia-instala-frente-parlamentar-para-avaliar-impacto-de-data-centers-no-rs/

  • A subcomissão dos Data Centers da Assembleia Legislativa do RS realizou um estudo e relatório sobre a situação, principalmente no que diz respeito ao Data Center da Scala AI em Eldorado do Sul:

  • O relatório explica de maneira bem didática o porquê do interesse na região:

O que torna o RS tão atrativo?

Embora o RS, como estado, reúna atributos relevantes, é a região metropolitana de Porto Alegre — e não o território estadual como um todo — que concentra fatores técnicos muito específicos que explicam a recente mobilização de projetos de grande porte. A atratividade decorre de uma convergência rara entre potência elétrica disponível com baixa fricção de conexão, perspectiva de expansão renovável diversificada, condições climáticas que reduzem custo de resfriamento, infraestrutura logística internacional e capital humano qualificado. Em conjunto, esses fatores reduzem simultaneamente prazo de implantação, custo operacional, risco regulatório/energético e risco de execução — quatro variáveis decisivas para investimentos intensivos em capital e com operação contínua, como data centers de grande porte.

  • Porém chama atenção para a ausência (ou o desejo da ausência) das salvaguardas de licensiamento ambiental:

Em que pese essas previsões, que se entende ser essencial para a autorização de um empreendimento como um data center, é possível verificar uma lacuna regulatória no que se refere às diretrizes ambientais aplicáveis de forma específica à implantação e à operação de data centers, ou, ao menos, de data centers com a magnitude pretendida pelo projeto de Eldorado do Sul.

  • E aqui eles fazem também de maneira didática um ponto que eu queria destacar:

Essa narrativa, que se ancora em uma expectativa justa, não pode ser
consolidada antes de um debate estruturado sobre quais são, de fato, os
benefícios esperados, quem se apropria deles e quais são os riscos associados
(ambientais, territoriais, energéticos e institucionais). Dados passam a ser
filtrados por um forte viés de confirmação, e o data center, a ser percebido
como um símbolo de modernização e de inserção na economia global, quase
como um gesto de benevolência econômica, mesmo na ausência de
clareza sobre que tipo de desenvolvimento está sendo promovido, em que
horizonte temporal e com quais efeitos estruturantes.

  • Existe uma percepção de que as tecnologias da informação são tão valiosas e poderosas que a sua “não adoção” significa “ficar para trás”. O potencial de avanço e LUCRO é imenso. Então o que eu proponho que a gente faça é um inversão do pacto CARACÚ

    • Eles entram com a cara e a gente entra com o resto…
  • ❌ Nós vamos entrar com incentivos fiscais, com o território, os recursos naturais e receber um % de P&D e um % de processamento dos data centers.

  • ✅ Nós vamos receber investimentos em P&D, teremos transferência de tecnologia, controle da operação com profissionais capacitados aqui e vocês recebem um % dos lucros operacionais

Conclusão

  • Se eles tem bilhões de dólares para gastar comprando todo o estoque de memória RAM do mundo, eles tem o suficiente para um plano ambiental robusto e para arcar com um contrato “justo”

  • O “pulo do gato” (não foi um LLM, eu juro que eu gostava de dizer isso antes) é que eles NÃO QUEREM um contrato justo e isso é uma tática de negociação

  • Chamar esse tipo de empreendimento de avanço e taxar os críticos de “ludistas anti progresso”, chamar a presença física de empreendimentos extrativistas no Brasil de soberania, taxar de “chilique” ou “choro” o cuidado ao licensiar a exploração do meio ambiente…

  • Tudo isso são maneiras de nos fazer aceitar as migalhas que nos oferecem e dessa forma é melhor dizer que não.

  • Relatório completo da Frente Parlamentar: https://sindppd-rs.org.br/wp-content/uploads/2026/06/Relatorio-Subcomissao-Data-Centers-Dep-Matheus-Gomes-1.pdf