Meta e Google condenadas (nos EUA)
Em 25 de março de 2026, um júri na Califórnia proferiu uma decisão favorável à condenação da Meta e do Google por projetarem deliberadamente suas plataformas para viciar usuários. Vamos falar sobre.
- A condenação veio após o caso de uma jovem que desenvolveu ansiedade e depressão severas devido ao uso compulsivo dessas redes desde os 9 anos de idade, onde a Meta foi condenada a pagar US$ 4,2 milhões e o Google US$ 1,8 milhão em indenizações.
https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2026/03/25/meta-julgamento.ghtml
https://fastcompanybrasil.com/news/juri-condena-meta-por-impacto-na-saude-mental-de-adolescente/
- Essa decisão é histórica porque, entre outras coisas, ajuda a quebrar um pouco o mito que a maioria das pessoas acreditam hoje, de que as redes sociais são “meios passivos” por onde a gente se comunica e se expressa.
- A gente já sabia, mas essa é pro pessoal no fundão da sala ouvir tb
- O júri considerou que houve negligência no design das plataformas, que utilizam recursos como, por exemplo, o “scroll” infinito e notificações, projetados para serem viciantes.
https://www.npr.org/2026/03/25/nx-s1-5746125/meta-youtube-social-media-trial-verdict
- A gente pode até problematizar a ideia de “vício” quando se fala em redes sociais e tecnologia no geral, mas o que dá para dizer com tranquilidade é que essas sentenças são o reconhecimento judicial de que essa relação problemática (do ponto de vista do bem-estar individual) que se cria com redes sociais não é um efeito colateral, mas o objetivo central do modelo de negócios dessas empresas.
- E isso põe em xeque a ideia de que “a gente usa” redes sociais, como se fosse uma relação simples, onde lado humano está no controle.
- Essa falsa sensação de "eu paro quando quiser" desconsidera que tem toda uma estrutura por trás que organiza o que aparece, quando aparece e como a gente interage com essas coisas
- E aqui fica uma aula de marxismo de graça pra vocês:
- Qual é essa estrutura?
- Qual o objetivo dessa estrutura?
- Dado que o objetivo não é 'fomentar os melhores debates', 'te fazer mais feliz' ou algo assim... o que isso diz sobre a nossa participação nessas redes?
A regulação como contrapeso?
- A pergunta que eu imagino que seja a mais importante diante de tudo isso é: por que demorou tanto para chegarmos aqui?
- A regulação de dados, como o Marco Civil da Internet no Brasil ou o GDPR na Europa, tenta agir como um contrapeso ao poder absoluto das big techs - falamos disso com mais ênfase no vídeo “COMO AS BIG TECHS ROUBARAM NOSSA IMAGEM [TECLAS.DOC #1]” - no entanto, é notável que existe uma "demora estratégica" no reconhecimento desses danos, e isso não é por acaso.
- As plataformas levaram décadas para sequer admitir que seus algoritmos poderiam ser prejudiciais, enquanto coletavam montanhas de dados comportamentais para refinar ainda mais suas "armadilhas de atenção"
- A regulação, neste contexto, assume o papel de “correr atrás do prejuízo”. Enquanto os tribunais ainda tentam decidir SE o design é “defeituoso” (algo que também valeria um vídeo inteiro só para problematizar)
- O capitalismo falhou? Depende para quem.
- O Facebook é uma porcaria? Depende para quem.
- Essas empresas já ganharam bilhões explorando, de forma bem concreta, fragilidades que fazem parte da vida social.
- Depressão, dificuldades de relacionamento, desinformação, ansiedade, todos tipos de dismorfias e disforias.
- Todos esses problemas podem se tornar perfis e portanto dados que podem ser vendidos, monetizados ou usados para o 'aprimoramento dos serviços'
- Além disso a demora em agir permitiu que essas plataformas se tornassem infraestruturas sociais indispensáveis, tornando qualquer tentativa de controle muito mais complexa e politizada.
https://www.poder360.com.br/poder-tech/debate-sobre-moderacao-de-plataformas-avanca-no-mundo/
- Mas mesmo que aos trancos e barrancos esse debate avança no mundo inteiro.
Dois pesos e duas medidas e o colonialismo digital
- Agora, vamos para a parte mais incômoda dessa história, que é a questão da disparidade geopolítica. É interessante (para não dizer “revoltante”) notar como o rigor regulatório muda conforme a geografia.
- Nos Estados Unidos e na Europa, vemos julgamentos severos, multas bilionárias e um debate intenso sobre a proteção da saúde mental dos jovens. Mas, enquanto essas ferramentas são questionadas em solo americano, elas continuam sendo empurradas “goela abaixo” para o resto do mundo, especialmente para o Sul Global.
- Isso é o que muitos pesquisadores chamam de “colonialismo digital”, onde as mesmas práticas consideradas “negligentes” ou “perigosas” na Califórnia são exportadas sem filtros para países com regulações mais frágeis, e o que é condenável para um jovem em Los Angeles é tratado como "progresso tecnológico" ou "inclusão digital" para um jovem no Brasil
- Existe uma hipocrisia sistêmica, porque os EUA utilizam seus tribunais para proteger seus próprios cidadãos disso que está sendo tratado como “vício algorítmico”, mas usam sua influência diplomática e econômica para fazer lobby e impedir que outros países regulem essas mesmas empresas.
https://apublica.org/2025/09/how-big-tech-killed-brazils-fake-news-bill/
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No fim das contas, a condenação da Meta e do Google abre um precedente importante. Que legal!
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Mas peraí... se o design é "defeituoso" nos EUA, ele não deveria ser considerado defeituoso em qualquer lugar do mundo?
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Porque enquanto celebramos essa vitória judicial, precisamos problematizar por que aceitamos ser o laboratório de experimentos sociais que os próprios países de origem dessas tecnologias estão começando a rejeitar?
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É hora de exigir que a proteção contra a exploração digital seja um direito universal, e não um item de luxo disponível apenas para quem vive no centro do império tecnológico.
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A regulamentação das big techs e o ativismo em prol disso deve ser entendido no contexto do imperialismo dos EUA e da luta de classes no Brasil. Quando vemos dessa maneira é difícil cair na ladainha da 'censura' ou 'controle estatal' abstrato e malvadão