Vamos falar sobre vagas fantasmas

Já aconteceu com vocês de aplicarem pra uma vaga e nunca ouvir de volta? Ou até fazer a entrevista e o negócio dar continuidade, mas depois te avisarem que o “o vaga não está mais disponível”? Vamos falar sobre o esquema das “vagas fantasmas”

  • “Vagas Fantasmas” (ou ghost jobs) é um fenômeno que nos interessa especialmente porque revela as bizarrices do mercado de trabalho na era digital.

  • O que estamos vendo é o nascimento de um momento bastante frustrante, onde os anúncios de emprego se tornaram ferramentas de marketing e de coleta de dados, onde empresas autênticas publicam oportunidades de trabalho sem qualquer intenção imediata de contratar.

  • Para começar, precisamos definir: as vagas fantasmas são anúncios reais feitos por empresas legítimas, mas que não possuem uma posição aberta para preenchimento imediato. Diferente de golpes, a empresa existe, mas a vaga é apenas uma “carta na manga”.

https://wp.nexojornal.com.br/story/trabalho-processo-seletivo-vagas-fantasmas-estrategia-de-marketing-empresarial/

  • As estatísticas mostram que isso se tornou algo estrutural.

  • Em 2024, o ResumeBuilder (que é um site voltado para criação de currículos e pesquisas de mercado) anunciou que realizou uma pesquisa com 1.641 gerentes de contratação para avaliar a prevalência da publicação de anúncios de emprego falsos. Na pesquisa 40% das empresas admitiram ao portal que publicaram vagas falsas para manter uma presença constante no mercado.

https://www.resumebuilder.com/3-in-10-companies-currently-have-fake-job-posting-listed/

  • Também outra empresa deste ramo, a LiveCareer, postou em maio de 2025 que 45% dos profissionais de RH confessaram publicar vagas inexistentes regularmente, muitas vezes para testar a força da marca empregadora.

https://www.livecareer.com/resources/careers/ghost-jobs

  • Dados do Bureau of Labor Statistics BLS (a principal agência federal dos Estados Unidos responsável por coletar, analisar e divulgar dados essenciais sobre economia e mercado de trabalho, incluindo inflação, desemprego e salários) foram analisados pelo site MyPerfectResume e mostraram que, em junho de 2025, os EUA tinham 7,4 milhões de vagas anunciadas, mas apenas 5,2 milhões de contratações. Ou seja, 2,2 milhões de vagas eram "fantasmas"

https://www.myperfectresume.com/career-center/careers/basics/ghost-job-economy

  • Já em 2026, a Clarify Capital (empresa de financiamento alternativo de Nova York, que atua como corretora, conectando pequenas e médias empresas nos EUA a diversos financiadores para obter capital de giro, linhas de crédito e empréstimos) realizou uma análise em 175 mil anúncios e revelou que 1 em cada 7 anúncios permanece ativo por mais de 30 dias sem intenção de contratação, especialmente em setores como atacado, mineração e biotecnologia.

  • Além disso, a pesquisa mostrou que quem mais leva “ghosting” são candidatos à vagas de liderança (de nível sênior, candidatos ao nível de vice-presidente, executivos de nível C e gerentes).

https://www.forbes.com/sites/rachelwells/2026/04/09/1-in-7-job-postings-are-ghost-jobs-new-study-reveals-here-are-3-steps-to-avoid-fake-job-ads/

Por que as empresas fazem isso?

  • As motivações variam de estratégias de mercado a práticas altamente questionáveis, mas o motivo mais comum é manter um banco de talentos. Recrutadores "pescam" currículos para o futuro, o que, inclusive, pode violar a LGPD se não houver transparência.

  • Outro ponto é sinalizar crescimento, pois deixar anúncios no ar dá a impressão de que a empresa está em expansão e sólida, mesmo que o orçamento para contratações esteja congelado, servindo como uma fachada para investidores e funcionários atuais.

  • Também serve para a coleta de informações de mercado. Algumas vagas servem apenas para sondar a disponibilidade de profissionais sêniores e descobrir "segredos" da concorrência através de entrevistas que nunca levarão a uma oferta.

https://www.einnews.com/amp/pr_news/907557538/the-consultative-trap-data-reveals-51-of-senior-professionals-targeted-by-ghost-jobs-for-free-industry-intelligence

  • E não podemos esquecer das exigências regulatórias pois, no serviço público e em grandes corporações, muitas vezes a vaga precisa ser publicada por lei, mesmo quando o candidato interno já foi escolhido, criando uma ilusão de mérito.

  • Além dos impactos negativos pro trabalhador, como perda de tempo e frustração, um ponto crucial a ser considerado é que seus dados pessoais são coletados.

  • Ao se candidatar, você fornece CPF, endereço e histórico profissional e, sem transparência, esses dados ficam armazenados em bancos de dados que você nem sabe que existem, muitas vezes desrespeitando as regras de privacidade.

  • Além disso, uma outra consequência não tão óbvia, é que isso gera uma distorção nas estatísticas. A proliferação dessas vagas inflaciona os números de emprego, dificultando a leitura correta da economia.

E o governo não faz nada? 😢 🇧🇷

  • O problema ganhou uma escala que começou a exigir regulação. No Canadá, a partir de 1º de janeiro de 2026, a província de Ontário passou a exigir que empresas informem o status da candidatura em até 45 dias, sob pena de multas pesadas.

https://blog.theinterviewguys.com/new-anti-ghosting-laws/

  • Nos EUA, o projeto de lei federal "Truth in Job Ads Act" (TJAAA ) busca exigir que anúncios incluam datas de contratação, faixas salariais e limites de 90 dias de publicação para evitar anúncios perpétuos.

https://www.truthinjobads.org/

  • Estados como Nova Jersey, Kentucky e Califórnia já discutem banir vagas fantasmas especificamente, prevendo multas a empregadores que não forneçam cronograma de decisões após a publicação.

https://www.congress.gov/crs-product/IF12977

  • No Brasil não existe uma proposta de lei específica quanto ao assunto, mas a PL 5128/2019 do deputado federal Célio Studart (PSD-CE), propõe a criminalização da divulgação de falsos postos de trabalho para prejudicar terceiros. Como por exemplo para acessar dados particulares. 

Conclusões

  • Em resumo, a epidemia das vagas fantasmas é um sintoma de um sistema de recrutamento que, não diferente de absolutamente nada dentro do capitalismo, prioriza métricas e números em vez de pessoas. É uma ironia que, em um mundo tão conectado, a comunicação entre empresa e candidato nunca tenha sido tão opaca.

  • Num sistema onde tudo vira mercadoria, desde a nossa força de trabalho até os nossos dados, essa é mais uma área que a gente precisa analisar e ‘expor o esquema’ pra vocês

  • Como sempre, se não houver pressão por regulação e punição para as empresas que fazem isso a conta continuará sendo paga pelo trabalhador. Então sim, isso significa organização e construção de força da nossa classe, mesmo que você não esteja desempregado!

  • E claro, aproveitem os comentários pra deixar relatos de situações parecidas que ocorreram com vocês!

Relato original

https://www.linkedin.com/posts/henrique-barbosa-qa_lgpd-recrutamento-transparencia-activity-7447010594819510272-yp2c/