O projeto de PocketFabs da USP

Existe soberania tecnológica sem acesso a hardware e aos microchips que estão dentro deles? A dependência externa no setor de chips semicondutores é um calcanhar de aquiles para muitas nações. Hoje nós vamos falar sobre um plano para o Brasil alcançar os outros países nessa corrida: os PocketFabs.

  • Durante a pandemia de COVID-19, vimos de perto como a falta de chips paralisou indústrias inteiras, inclusive 14 das 59 montadoras de veículos brasileiras em 2022. O Brasil, um dos maiores consumidores de eletrônicos, importa mais de 85% dos semicondutores que utiliza, gerando um déficit comercial de US$ 41 bilhões em 2025.

https://www.poder360.com.br/economia/por-falta-de-chips-14-montadoras-pararam-em-2022-diz-anfavea/

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2025/12/04/possivel-escassez-de-chips-acende-alerta-no-setor-eletroeletronico-no-brasil.ghtml

  • A produção global de semicondutores é dominada por megafábricas no leste da Ásia, empreendimentos bilionários, caros, gigantes e altamente poluidores, que consomem enormes quantidades de energia e água.
  • Os países do Sul Global, os Estados Unidos e a União Europeia, correm para incentivar a fabricação doméstica com programas como o CHIPS Act, mas construir essas megafábricas leva anos e exige investimentos estratosféricos. Nós já falamos algumas vezes aqui do Trump pressionando fabricantes de chips a ‘produzirem em território dos EUA’

https://pt.euronews.com/next/2026/04/25/europa-tenta-manter-campeoes-industriais-na-era-da-ia

  • É nesse contexto que se insere o projeto das PocketFabs, ou “fábricas de bolso”. Em vez de uma única megafábrica, a proposta é ter várias unidades menores, modulares, portáteis e reconfiguráveis, cada uma com cerca de 150 m².
  • O professor dr. Marcelo Knörich Zuffo, coordenador do Centro de Inovação da USP, descreve essa iniciativa como uma mudança de paradigma: “uma fábrica modular, flexível, sustentável e não massiva, pensada para ser portátil e escalável.”

https://www.poli.usp.br/noticias/polinamidia/poder-360-veja-como-deve-ser-a-fabrica-de-chips-da-usp/

https://www.poder360.com.br/poder-tech/usp-cria-micro-fabrica-de-chips-e-quer-multiplica-las-como-padarias/

Ambição é o que não falta ao projeto. O PocketFab tem pretensões geopolíticas e tecnológicas: quer colocar o Brasil no fechado clube dos fabricantes de semicondutores e produzir protótipos chips de inteligência artificial, algo que a China só alcançou depois de bilhões de dólares investidos.

O Brasil é um dos 5 maiores consumidores de produtos eletrônicos do mundo, mas o deficit comercial desse setor deve ultrapassar os US$ 40 bilhões neste ano, segundo dados da Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica). A importação de chip é uma das principais causas do déficit.

  • Sobre a indústria de chips chinesa eu recomendo esse documentário do TeClas gringo Gamer Nexus
  • As PocketFabs prometem uma produção integrada, onde o design dos chips é feito pela USP, e a validação e aplicação industrial pelo SENAI-SP.

  • A primeira unidade, inaugurada em janeiro de 2026 no InovaUSP, tem capacidade para 10 milhões de chips por ano, com projeção de 60 milhões anuais com dez microfábricas, com o custo surpreendente de apenas R$ 89 milhões para a primeira PocketFab (uma fração muito pequena se comparada com a dos US$ 150-200 bilhões de uma megafábrica tradicional).

https://telesintese.com.br/usp-lanca-fabrica-modular-de-semicondutores/

Perspectivas para o Brasil

  • A replicabilidade é um dos pontos centrais deste projeto, pois essas unidades “do tamanho de uma padaria”, como diz a matéria, podem ser instaladas em diversas regiões do país, criando uma rede de produção que reduzirá a dependência de importações. O projeto é uma parceria entre USP, FIESP e SENAI-SP, com a FIESP e o SENAI investindo cerca de R$ 5 milhões na primeira fábrica e focando na formação de mão de obra.

  • As PocketFabs produzirão chips para setores críticos como o automotivo (ADAS), sensores inteligentes para a Indústria 4.0 e dispositivos médicos, áreas que conhecidamente sofrem com a escassez de semicondutores. Além disso, a iniciativa funcionará como um centro de formação, com o SENAI-SP capacitando até 500 profissionais por unidade, suprindo a lacuna de mão de obra qualificada, um problema global no setor.

  • Ao internalizar parte da produção de semicondutores, o Brasil busca fortalecer sua soberania tecnológica e atingir a meta de elevar sua participação na cadeia global de 1% para 2% até 2033.

  • Isso, do ponto de vista econômico, não só garante segurança de abastecimento para setores essenciais, mas também dinamiza a economia, gerando empregos e impulsionando empresas de base tecnológica. O professor Zuffo projeta que cada PocketFab pode faturar US$ 60 milhões por ano, recuperando o investimento em poucos meses.

https://radardigitalbrasilia.com.br/tecnologia/entre-chips-dados-e-inteligencia-artificial-2025-marcou-o-avanco-da-soberania-tecnologica-do-brasil/

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/04/04/usp-aposta-em-fabricas-de-bolso-para-colocar-o-brasil-no-mapa-dos-semicondutores.ghtml

  • Se bem-sucedida, essa experiência pode redefinir o modelo tradicional de produção de semicondutores, posicionando o Brasil como um ator bastante relevante no cenário geopolítico

  • Obviamente a posição da economia brasileira na cadeia global, não se dá meramente por que somos “sem ideias” ou “incompetentes” como parte da direita diz OU porque faltou alguém chegar com um plano de desenvolvimento como a outra parte da direita diz.

  • A nossa inserção é como produtor de commodities que são exportados a preço de banana (já pensaram na origem dessa expressão?) para os grandes pólos “desenvolvidos” do mundo.

  • A industrialização do nosso país e a nossa inserção como um produtor de alta tecnologia passa também por uma revolução política e orientada a partir dos interesses da nossa classe trabalhadora e não com uma aliança com a nossa burguesia

    • Que é entreguista e dependente dos EUA, não porque é má ou odeia “o desenvolvimento”, mas porque materialmente a agricultura é um dos setores dominantes da nossa economia (e portanto da nossa política)
  • Outro desafio é o nosso acesso a materiais necessários para a produção desses chips, por exemplo recentemente vemos a aquisição da mineradora ‘Serra Verde’ pela ‘USA Rare Earth’. Tópico que vamos desenvolver melhor semana que vem.

https://www.nexojornal.com.br/externo/2026/04/23/usa-rare-earth-serra-verde-mineracao-terras-raras-goias-comparada-pelo-eua

  • Mas é isso, PocketFabs, o que vocês acham… será que no futuro nós estaremos trabalhando pra fazer chips e desenvolver tecnologia nacional ao invés de estar criando o mesmo CRUD vibecodado pela centésima vez? Deixe nos comentários