A estratégia de cortes do MBL

Vocês devem ouvir muito por aí da genialidade política do MBL e agora partido Missão, que os caras tem um movimento “orgânico”, muitos organizados e etc… Hoje eu queria fazer uma pequena análise de uma estratégia das campanhas do MBL e como eles tem driblado a lei eleitoral e usado as regras das redes sociais em seu benefício

Veja no canal:

https://www.intercept.com.br/2026/08/12/mbl-estrategia-cortes-pode-deixar-renan-santos-inelegivel/

Candidatos do partido Missão – fundado e liderado por integrantes do Movimento Brasil Livre, o MBL – estão incentivando a produção e a divulgação em massa de vídeos editados nas redes sociais, os chamados “cortes”, com a promessa de dinheiro fácil. Na prática, a tática de remuneração se daria a partir da monetização de redes sociais como o TikTok e o YouTube, que dividem os lucros vindos de anúncios com perfis que geram mais visualizações. 

  • A ideia é simples: os influenciadores do MBL constantemente criam conteúdo longo com falas polêmicas e com potencial de viralizar:
    • Como todos bons criadores de conteúdo é possível aplicar uma estratégia de funil com o conteúdo (lives → cortes horizontais → cortes verticais)
    • Mas quem faz os cortes não necessariamente precisa ser a equipe desses influenciadores, podem ser os seus fãs
    • Dessa forma o MBL antes, e o Missão durante as eleições, cria “militantes” que na realidade são um exército de editores freelancer que esperam receber migalhas terceirizadas das plataformas
    • Isso é muito poderoso porque nenhuma ideologia move mais no capitalismo do que a necessidade de tirar um cascalho
    • Muito parecido com criptomoedas também, é um esforço de evangelização da sua comunidade que diretamente afeta o valor do seu “ativo”
    • BÔNUS: não estou dizendo que eles tem bots de engajamento, mas esse tipo de estratégia tem uma boa sinergia com sistema de comentários automatizados inflando os números

A estratégia é encabeçada pelos principais nomes do grupo. Em vídeos que circulam na internet, o candidato à Presidência da República pelo Missão, Renan Santos, e o deputado federal Kim Kataguiri, que busca a reeleição, promovem abertamente o curso online Máquina de Cortes. Vendido pela Valete Plus, plataforma ligada ao próprio MBL, o treinamento promete ensinar o público a “criar cortes virais e transformar vídeos em renda”.

  • E vocês devem estar se perguntando… isso tudo tá dentro da lei? Pode uma coisa dessas? Na real é um DEPENDE bem grandão, porque isso é basicamente a estratégia de cortes que foi usada pelo Pablo Marçal na última eleição:

A estratégia, porém, custou caro. Alvo de uma ação movida pela campanha da então candidata Tabata Amaral, do PSB, Marçal foi declarado inelegível pelo Tribunal Regional Eleitoral do Estado de São Paulo, o TRE-SP, que enquadrou os campeonatos de cortes como uso indevido dos meios de comunicação.

No acórdão, a corte paulista foi categórica: “A utilização da técnica de monetização para criar uma falsa rede de postagens orgânicas, fomentada pela promessa de recompensa, configura o uso de ferramenta digital para alterar a repercussão da propaganda eleitoral”. 

  • A gambiarra que o MBL está fazendo agora é montar toda a estratégia de redes, hashtags, “XP do Missão” como gamificação e a promessa de lucro como parte desse curso de criação de conteúdo

De acordo com a advogada, “o fator decisivo não é quem literalmente deposita o dinheiro, mas se existe estímulo e organização por trás”. Nesse sentido, havendo esse incentivo, “a comissão paga pela plataforma já se enquadra na vedação, segundo essa jurisprudência”, complementa.

Na avaliação de Nicolini, campanhas políticas que montam estruturas para impulsionar a produção monetizada de cortes – promovendo desafios, rankings, hashtags padronizadas e monitoramento de resultados – correm “risco real” de punição da Justiça Eleitoral.

  • A precaução que os MBLers usam nesse sentido é pedir que todas as contas de cortes sejam individuais e não quebrem as regras de “discurso de ódio” das plataformas.

    • Mas ao mesmo tempo eles proveem os cortes, a identidade visual e as regras
    • É bastante análogo a uma uberização da criação de conteúdo eleitoral
  • Eu vou recomendar esse vídeo do Felipe Boni onde ele mostra algumas das plataformas do MBL usadas pra isso e comenta mais sobre:

  • Mas pra finalizar esse vídeo eu queria trazer um extra sobre essa prática e como ela na realidade já é uma tendência nas redes sociais faz algum tempo

  • E se você não sabia… isso vai explicar pra vocês muito de como as redes sociais de conteúdo corte funcionam. É muito menos orgânico do que parece

O que é clipping?

  • Não sei se vocês sabiam, mas essa é uma tática famosa por ter alavancado o criador de conteúdo misógino Andrew Tate que hoje está preso preventivamente por acusações de estupro e tráfico humano no Reino Unido.

    • Não só ele fomentou um ecossistema de clipes das suas “mitadas” como ele vendia o curso “Hustler Academy” para ensinar como ganhar dinheiro sendo um peixe piloto de misoginia
  • Esse modelo de negócios é chamado de “clipping”. A ideia aqui não é condenar por associação porque isso é uma tática já quase padrão da indústria.

  • Porém é entender como a dinâmica das redes sociais e modelo de negócios delas incentiva o conteúdo rápido, de baixa informação, chocante e muitas vezes se aproveitando de preconceitos e opiniões demagógicas:

    • Dá pra linkar isso por exemplo com a maneira como TikTok / Meta contam visualização
    • E que o YouTube decidiu adotar a partir de agosto de 2026

https://www.theatlantic.com/podcasts/2026/04/how-short-form-clips-took-over-the-internet/686922/

  • É possível encontrar diversos tutoriais na gringa falando sobre isso, é uma das tendências bem cyberpunk de trabalho que uma geração sem esperança tem:
  • Precisa de renda extra? Encontre conteúdo de influenciadores maiores na internet, extraia momentos polêmicos, engraçados, emocionantes e poste uma versão editada deles nas redes sociais

  • Essa prática feita de maneira orgânica já caiu em desuso faz bastante tempo. Agora equipes de marketing tem um orçamento específico para gastar em plataformas que monetizam e gameficam a criação de clipes:

https://whop.com/blog/whop-clips/

https://playlistpush.com/tiktok-creator-program

  • E na prática é sim uma grande uberização da criação de conteúdo. Dá pra terceirizar quem edita, quem posta e inclusive quem lucra em cima.

  • Mas a conclusão que amarra de volta com questão do MBL: quem constrói a sua imagem e se beneficia mesmo são aqueles que geram o conteúdo do corte

  • Vocês não estão trabalhando de graça, mas é quase de graça e sob uma escala completamente arrombada. Pra cada 1 página ganhando milhares de reais mensais criando conteúdo (debatível tá?) tem dezenas de páginas menores que estão tirando quase nada