Irã, EUA, Israel e "tecnologia"

Hoje, vamos falar sobre a invasão do Irã, um conflito que, acreditem, vai muito além das manchetes de guerra, e que nos interessa especialmente no tema da tecnologia

  • O que estamos testemunhando é o nascimento de um momento inédito, onde a infraestrutura digital e as cadeias de suprimentos globais se tornaram as principais armas e, paradoxalmente, as primeiras vítimas.

  • Neste vídeo a ideia é explorar como a disputa por recursos como hélio, gás e chips está desenhando um cenário de destruição sistêmica que atinge desde as linhas de montagem de gigantes como a TSMC até o poder de compra da classe trabalhadora global. Já comentei brevemente sobre isso em outro vídeo do canal que saiu na semana passada, mas aqui eu queria destrinchar um pouquinho mais.

O primeiro ataque e o papel das big techs

  • Em 28 de fevereiro deste ano, quando os Estados Unidos e Israel lançaram uma ofensiva coordenada contra o Irã, e o que torna esse ataque diferente é a utilização, de forma inédita, de modelos de linguagem de larga escala, as famosas LLMs, para a seleção de alvos em tempo real. Sim, estamos falando de Inteligência Artificial decidindo onde e como atacar.

https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/entenda-como-eua-usam-inteligencia-artificial-em-guerra-com-ira/

O especialista destacou que todas as imagens coletadas durante operações militares geram um montante gigantesco de dados que, quando processados por IA, podem revelar pistas sobre próximos alvos, capacidade instalada e prever possíveis reações. "Até mesmo prever o que pode vir a acontecer e já dar caminhos numa resposta a um ataque", explicou.

  • Esses sistemas foram empregados principalmente para analisar grandes volumes de dados (como imagens de satélite, informações de inteligência e vigilância) e, a partir disso, sugerir e priorizar possíveis alvos, acelerando um processo que tradicionalmente levaria muito mais tempo.

Adendo:

  • Isso marca uma mudança importante na forma como operações militares são conduzidas, não que isso não tenha acontecido antes ou que big techs não sejam essenciais provendo infraestrutura para o exército. Mas agora se fala abertamente nas decisões feitas por essas ferramentas.

  • Lembram da Anthropic, a empresa por trás do assistente Claude? Pois é, eles inicialmente resistiram ao uso militar de sua tecnologia, mas a pressão do Pentágono foi pesada, exigindo a remoção de restrições de segurança.

https://www.reuters.com/legal/government/trump-administration-defends-anthropic-blacklisting-us-court-2026-03-18/

  • Em tempos de guerra, a tão vendida "neutralidade da IA" é rapidamente subordinada aos interesses do complexo industrial-militar, como ficou evidente na pressa da OpenAI em ocupar o lugar deixado pela Anthropic.
  • Isso mostra para nós mais uma vez que a infraestrutura tecnológica privatizada dessas Big Techs não é mais apenas para redes sociais ou e-commerce, mas se tornou a “espinha” da guerra moderna, onde o armazenamento em nuvem e os algoritmos de IA são tão letais quanto mísseis. É realmente uma privatização da guerra, com consequências que ainda estamos começando a entender.

Irã faz ameaça às big techs

  • Dada a centralidade e o papel decisivo que o domínio que as estruturas tecnológicas estão tendo no escopo da guerra, o Irã já avisou que vai atacar “centros econômicos e bancos” vinculados a entidades dos EUA e Israel na região e, além disso, divulgou uma lista detalhada de escritórios e infraestruturas de grandes empresas estadunidenses com vínculos israelenses, descrevendo-os como “novos alvos do Irã”

https://convergenciadigital.com.br/internet/ira-mira-nuvem-de-big-techs-e-ameaca-google-ibm-oracle-microsoft-e-nvidia/

“Na quarta-feira, as forças iranianas emitiram um alerta de que atacariam a infraestrutura de empresas como Google , Microsoft , Palantir , IBM, Nvidia e Oracle no Oriente Médio/Israel.

O Golfo atualmente abriga mais de 70 data centers com uma capacidade de TI estimada entre 557 e 738 megawatts. Isso inclui 10 regiões de nuvem operadas pela Amazon Web Services (AWS), Microsoft Azure, Google Cloud, Oracle e Alibaba”

https://economictimes.indiatimes.com/tech/technology/iran-threat-raises-war-risks-for-30-billion-gulf-data-centre-boom/articleshow/129518989.cms?utm_source=contentofinterest&utm_medium=text&utm_campaign=cppst

  • E atacou no dia 01/03/26, danificando o data center da AWS e fazendo os workloads serem roteado por outras regiões:

https://www.tomshardware.com/tech-industry/drone-strikes-hit-three-aws-data-centers-in-the-uae-and-bahrain

O estrangulamento da cadeia de suprimentos

  • Um dos pontos mais críticos é a interrupção da produção de hélio e gás natural. O hélio, esse mesmo gás que usamos em balões de festa, é, na verdade, indispensável em várias etapas da fabricação de semicondutores. Ele é usado na refrigeração de equipamentos de litografia de ponta, aqueles que fazem os chips mais avançados, e também em equipamentos médicos e tecnologias espaciais.
  • O problema é que o Catar, um dos maiores produtores de hélio do mundo, teve suas instalações de exportação de gás natural atacadas pelo Irã. O Catar é responsável por cerca de 30% a 35% do hélio mundial.

https://www.dw.com/pt-br/guerra-no-irã-gera-falta-de-hélio-vital-para-semicondutores/a-76436116

https://www.pcguia.pt/2026/03/crise-no-medio-oriente-ameaca-producao-global-de-chips-por-falta-de-helio/

  • Sem esse hélio, a refrigeração dos equipamentos da ASML, que são usados pela TSMC e Samsung para fabricar os chips mais modernos, simplesmente não funciona.

  • A interrupção no Estreito de Ormuz, uma rota marítima vital, bloqueou o fluxo de minerais essenciais, fazendo com que os custos de produção de chips de memória RAM e processadores de IA disparassem (isso quer dizer que vai faltar pra gente)

  • Essa crise de suprimentos tem implicações diretas para a própria guerra.

    • A falta de semicondutores e outros insumos essenciais limita a produção e a manutenção de armamentos avançados como drones, mísseis e sistemas de comunicação.
    • A falta de componentes afeta tudo, desde a manutenção de veículos e aeronaves até a operação de sistemas de comando e controle. Isso pode ser decisivo em um conflito prolongado
    • Países que dependem muito de importações para seus insumos tecnológicos e energéticos se tornam extremamente vulneráveis e a busca por autonomia na produção de chips, que já era uma realidade na "guerra dos chips" entre EUA e China, agora ganha uma urgência ainda maior
  • Porém a destruição da cadeia de suprimentos não é um evento abstrato que acontece lá longe porque ela se traduz diretamente em inflação e em exclusão digital.

  • Analistas preveem que o preço de smartphones e computadores básicos vão subir em 2026 pelo aumento do custo dos componentes e da logística.

https://www.techtudo.com.br/noticias/2026/03/guerra-eua-x-ira-conflitos-podem-afetar-os-precos-de-eletronicos-edinfoeletro.ghtml

  • É uma ironia cruel que a mesma tecnologia que nos prometeu um futuro mais conectado e acessível, agora caminha para se tornar um luxo para poucos, impulsionada por conflitos que parecem distantes, mas que nos afetam diretamente.

Táticas de guerrilha

  • Diante de uma superioridade tecnológica avassaladora dos EUA e Israel, o Irã não ficou parado. Eles adotaram táticas de "baixa tecnologia" que são, na verdade, muito inteligentes (nos lembrando bastante de como o Vietnã resistiu em seu tempo), que é a exploração das falhas dos sensores de IA

https://xcancel.com/idfonline/status/2029073358327799867

  • Ao pesquisar nós descobrimos que existe uma discussão interessante sobre a veracidade dessas imagens, porque realmente circulam por aí imagens 'fake' de um suposto bombardeamento de uma pintura. Mostra a dificuldade de se informar em meio a guerra de narrativas.

https://www.terra.com.br/noticias/checamos/postagens-compartilham-imagem-de-ia-para-alegar-que-ira-usa-desenhos-como-iscas-militares,b6b3c93a76b8290990e3ff6b1b425a19trwsds82.html

  • Uma dessas táticas é a saturação por drones de baixo custo. O Irã está usando massivamente drones Shahed-136, que custam cerca de 20 mil dólares cada. O objetivo não é necessariamente causar um dano enorme com cada drone, mas sim exaurir os sistemas de defesa antimísseis do inimigo, como o Iron Dome e o Patriot, que usam interceptadores que custam milhões de dólares

  • É uma guerra de atrito, onde o custo-benefício pende para o lado de quem usa a tecnologia mais barata e abundante

Geopolítica e algumas hipóteses

  • A destruição da cadeia de suprimentos e a militarização da tecnologia desenham um cenário meio nebuloso, mas podemos traçar algumas hipóteses a partir do que tá colocado:

A "Soberania de Dados" como nova fronteira: 

  • Uma das possibilidades é que a guerra force as nações a buscarem uma soberania total sobre seus dados e infraestrutura digital, o que pode levar a uma internet fragmentada, o que alguns chamam de "Splinternet", onde cada bloco geopolítico terá seu próprio ecossistema fechado de IA e hardware.
  • Imagine um mundo onde a internet não é mais global, mas dividida em várias redes regionais, cada uma controlada por uma potência. Isso mudaria radicalmente a forma como nos comunicamos e acessamos informações.

O colapso do "boom" da IA

  • Outra hipótese é o que a gente já vem falando aqui no canal bastante, que é o colapso do "boom" da IA.
  • O custo energético e material para manter os gigantescos data centers de IA pode se tornar insustentável e se a energia e os componentes continuarem caros e escassos, podemos ver um estouro da bolha de investimentos em tecnologia e uma recessão focada no setor de serviços digitais
  • Tenho ouvido uns rumores sobre uma aproximação da China com Taiwan devido às dificuldades de acesso à cadeia de suprimentos (os EUA não vão deixar isso nem a pau)

Conclusão

  • Em resumo, o conflito no Irã é um “microcosmo” das tensões e interdependências que são centrais no século XXI e a destruição da cadeia de suprimentos, hoje impulsionada por ações militares e geopolíticas, não é um evento isolado, mas um sintoma de um sistema global em crise.

  • As implicações são muitas e muito complexas. A maneira como os governos e as big techs responderão a esses desafios vai determinar não apenas o futuro do conflito, mas a própria arquitetura da sociedade digital e o acesso à tecnologia para as próximas gerações.

  • Como sempre, se não nos organizarmos, a conta será paga por nós, trabalhadores, que somos o lado mais vulnerável da balança.