🇨🇳 IA não é desculpa pra demitir 🇺🇸 Produza mais com IA “or else”
Um trabalhador chinês ganhava 25 mil yuan por mês revisando conteúdo de IA. A empresa disse: "vamos te rebaixar com 40% de corte". Ele recusou e foi demitido. A justiça chinesa decidiu que a IA sozinha não justifica demissão. Já nos EUA ...
-
Isso aconteceu em Hangzhou, o funcionário tinha como tarefa avaliar a qualidade de interações de uma IA com os usuários (ironicamente)
-
Meses antes, um painel de arbitragem em Pequim já tinha decidido a mesma coisa, nesse caso com relação a um trabalhador que coletava dados para fazer mapas.
-
“A empresa pode adotar IA, mas o risco não pode cair todo sobre o trabalhador.”
-
Eu sei que já tem um monte de CEOs de SaaS que já tão digitando os seus comentários aí porque estão achando um absurdo e que vão tirar a liberdade deles demitirem os seus (0) funcionários ou reduzir a sua receita bruta (antes de pagar o Claude e a hospedagem)
-
Enquanto isso na Meta, Zuckerberg anuncia 8.000 demissões. 10% da força de trabalho global. Cortes começam 20 de maio. E já fica avisado que pode vir mais.
"Temos dois grandes centros de custo na empresa: infraestrutura de computação e itens relacionados a pessoas" – Mark Zuckerberg
- Primeiro trimestre de 2026 da Meta mostra um aumento de 33% da receita com relação a 2025, então a empresa tem um modelo de negócios sólido. Porém de U$26bi líquido a Meta gastou U$19bi em ‘capex’ (despesas de capital OU construir data center / capacidade de compute)
A explicação de Zuckerberg é mais específica do que a maioria, apontando explicitamente para os gastos com infraestrutura, em vez dos ganhos de produtividade impulsionados pela IA, como o fator determinante. No entanto, essa especificidade gera sua própria tensão. O vice-presidente de aprendizado profundo aplicado da Nvidia, Bryan Catanzaro, afirmou no início desta semana que o custo da computação já é maior do que o dos funcionários de sua equipe, e um estudo do MIT de 2024 também constatou que a automação por IA era economicamente viável em apenas 23% das funções relacionadas à visão computacional. Se a infraestrutura de IA é atualmente mais cara do que a mão de obra que ela complementa, o retorno de trocar uma pela outra continua sendo uma estratégia duvidosa.
Só que é pior: você está treinando seu próprio substituto
https://www.wired.com/story/meta-covalen-ai-workers-layoffs/
-
A Meta instalou nos computadores dos funcionários uma ferramenta chamada Model Capability Initiative (MCI).
-
Ela captura: movimentos de mouse, cliques, teclas digitadas, capturas de tela ocasionais.
- Quem já viu a gente falar sobre ou interage com isso no trabalho sabe que isso vai na mesma linha de ferramentas
-
Objetivo é pegar dados de como humanos fazem tarefas pra treinar agentes de IA que façam sozinhos.
Em uma lista específica de aplicativos e sites de trabalho, a MCI registra movimentos do mouse, locais de cliques, teclas digitadas e capturas de tela intermitentes dos computadores de trabalho de funcionários nos EUA. O objetivo declarado do memorando não é a gestão de desempenho, mas sim ajudar os modelos de IA da Meta a aprenderem comportamentos de uso do computador com os quais atualmente têm dificuldades — especificamente, navegar em menus suspensos e usar atalhos de teclado. A Meta afirma que a atividade dos funcionários em máquinas da empresa é monitorada há anos e que medidas de segurança protegem o conteúdo sensível.
-
Treinar modelos com dados de uso, por exemplo de um sistema para o usuário final tem toda problemática legal e de privacidade. Agora nos EUA a gente junta uma legislação trabalhista mais fraca e uma força de trabalho com medo da demissão. É aqui que a Meta achou um diferencial.
-
Por isso o artigo se chama: “Meta Is Turning Its Workforce Into An AI Training Moat”
-
Em Dublin, mais de 700 funcionários da Covalen (contratada da Meta) foram avisados que podem perder os empregos. Eles treinavam e revisavam conteúdo de IA. Uma funcionária resumiu como “basicamente estamos treinando uma IA que vai substituir nosso trabalho”
-
Detalhe sórdido é que parte do trabalho envolvia passar dias simulando ideação suicida ou pedindo material de abuso, por exemplo conteúdo de pdf, pra ensinar modelos a não reproduzirem esse tipo de material.
Se liguem nesse contraste:
- Agora tendência das empresas de IA nos EUA é aumentar o tal do capex que esse ano está previsto para ser 77% maior que 2025 e chegando a U$725bi no total
https://www.tomshardware.com/tech-industry/big-tech/big-techs-ai-spending-plans-reach-725-billion
-
Ao mesmo tempo que só nos primeiros 4 meses de 2026: 78.000 trabalhadores de tecnologia demitidos. Quase metade atribuída diretamente à IA, sendo isso real ou não.
-
Mas não podemos esquecer que a IA ainda é treinada com dados reais de trabalho humano. Os mesmos que estão sendo eliminados da força de trabalho. Vejam se a frase “vocês não tem nada a perder a não ser suas correntes” não é ainda muito atual?
Conclusões
-
Agora é pro CEO de SaaS que não deve nem ter chegado até aqui. Larga esse papo de o "progresso inevitável" … eu explicitamente fiz um cherry pick aqui das noticias, mas é pra gente tentar explicar uma coisa
-
Hoje você gerencia artesanalmente alguns agentes de IA pra gerar rapidamente código que será basicamente impossível de dar manutenção. Por que você acha que o SEU papel nessa cadeia é mais importante do que o do engenheiro, programador, designer, devops e etc…
-
A substituição dos empregos que se fala não é a automação total do trabalho humano. Se parece mais com esses trabalhos não existindo mais para você e sendo realizados por uma empresa muito mais eficiente em outro país.
-
Essa ‘revolução da IA’ aos moldes das big techs é basicamente esmagar os direitos trabalhistas em torno de especulação e construção de ferramentas que só desenvolvem o entorno dessas próprias big techs
-
Só que os EUA está fazendo isso de maneira anárquica e esmagando o poder de barganha e organizativo dos seus trabalhadores. O que a China pelo menos aponta que é possível é frear essa tendência autodestrutiva e o soft power deles só cresce nesse sentido.
-
Inclusive é por isso que os EUA precisam cada vez mais colocar o ‘poder duro’ na mesa. Guerra, sanções econômicas e repressão.
-
Então eu espero que vocês tenham gostado de como eu tentei juntar desde a análise das tendências de trabalho em 2026 até os movimentos geopolíticos das 2 maiores potências mundiais. Deixem seu like e se inscrevam.