O fim do Metaverso
Vamos falar do que talvez seja o maior "flop" da história do Vale do Silício: o fim do Metaverso do Mark Zuckerberg, ou, vamos dizer, de uma tentativa de privatizar a própria realidade e a socialização humana sob uma lógica mega corporativa totalmente descolada das necessidades concretas das pessoas.
- O “metaverso”, especialmente na versão promovida pela Meta Platforms, era apresentado como uma “evolução da internet”, que significava na prática um ambiente virtual imersivo, acessado principalmente por realidade virtual (VR), onde as pessoas trabalhariam, socializariam, consumiriam e até construiriam identidade através de avatares em espaços digitais persistentes
- Uma espécie de “internet 3D” integrada, contínua e controlada por plataformas.
- A proposta não abarcava só interação social, mas também economia digital, trabalho remoto, eventos e serviços, tudo dentro de um ecossistema relativamente centralizado e pensado para substituir (ou, pelo menos, reorganizar) a forma como usamos a internet hoje.
- Esse mesmo metaverso, que nos foi vendido em 2021 como o "sucessor da internet móvel", tornou-se em 2026 um cemitério digital de bilhões de dólares, enquanto a Meta corre desesperadamente para abraçar a inteligência artificial como sua nova boia de salvação.
- Vamos reconstruir brevemente como chegamos aqui, vamos falar do marketing enganoso dos avatares sem pernas até as demissões em massa que financiaram esse delírio, e por que plataformas como Roblox e VRChat venceram a Meta ao oferecerem algo que aparentemente o dinheiro do Zuck não conseguiu comprar que é comunidade real ✨
Fim do Horizon VR
https://www.wired.com/story/meta-is-shutting-down-horizon-worlds-on-meta-quest/
- O golpe de misericórdia no projeto veio agora, em março de 2026, quando a Meta anunciou que o Horizon Worlds (sua principal plataforma social em VR) deixará de ser acessível via headsets Quest em junho deste ano, focando quase exclusivamente na versão mobile.
- Acredito que não é precipitado afirmar que a gente pode entender isso como o reconhecimento oficial de que a "imersão total" que nos prometeram tanto flopou.
- Esse movimento acompanha o encerramento do Horizon Workrooms, o aplicativo de reuniões que prometia substituir os escritórios físicos por salas virtuais estéreis. Em fevereiro de 2026, a empresa descontinuou o serviço e deletou os dados associados, admitindo que o "futuro do trabalho" não seria em VR.
- Entretanto, a Meta deu um passo atrás logo em seguida. Após a reação negativa dos poucos usuários e criadores que ainda restavam na plataforma, a empresa recuou na decisão de encerrar o acesso em VR, mantendo-o disponível "pelo futuro próximo".
- Além disso teve uma notícia estranhíssima nos últimos dia que é a Meta investindo num ‘Mark Zuckerberg virtual’ que poderá acompanhar os funcionários da Meta no trabalho:
- No fim das contas, o que fica evidente é que a Meta tá tão perdidona, que já não consegue sustentar o próprio discurso e vai ajustando a rota conforme a pressão aumenta. O Horizon VR continua existindo, mas muito mais como uma forma de não admitir o fracasso do que como algo que ainda faça sentido de verdade e, enquanto isso, o foco real já mudou, como a gente vai ver mais adiante. Basicamente, o recuo não é exatamente estratégico, é mais uma tentativa de não perder os poucos usuários que ainda estão ali na sombra da Meta e tentar preservar alguma credibilidade (se é que é possível).
Momentos cringe
- Não podemos esquecer como a Meta tentou (pra variar) nos enganar com marketing falso. Em 2022, o mundo riu dos avatares sem pernas, e a resposta da Meta foi um vídeo pré-gravado com motion capture fingindo ser tecnologia em tempo real.
https://www.uploadvr.com/meta-avatar-legs-connect/
- Também lembrar quando um Mark Zuckerberg virtual aparece muito preocupado com o furacão que atingiu Porto Rico e faz um tour virtual com seus personagens sem pernas e low poly pelas ruínas do país
- Basicamente, o que vemos é o quão ridícula é a forma de agir de uma empresa que tentou criar uma "necessidade" artificial para um produto que absolutamente ninguém pediu ou queria. O metaverso da Meta era um "feirão de amostras" vazio, com gráficos de 20 anos atrás, enquanto no mundo real o que as pessoas estavam buscando mesmo eram conexões genuínas com outras pessoas e, talvez, isso responda por que Roblox e VRChat venceram.
“Horizon Worlds é um dos serviços de realidade virtual menos populares que existem, a julgar pela alegria quase palpável que se vê nos comentários do tópico do subreddit r/oculus sobre o fim do serviço. Foi amplamente ridicularizado desde o seu anúncio, principalmente devido a um início conturbado. Os avatares dos jogadores não tinham pernas e pareciam monstros com olhares tão vazios que o avatar bizarro do CEO da Meta, Mark Zuckerberg, virou meme.”
Roblox e VRChat
- O argumento, talvez, mais forte contra o metaverso de Zuckerberg é que o "”metaverso”" (para o propósito que se pensou) já existia e estava prosperando, só que não era dele e nem da forma como ele pensou. Enquanto o Horizon Worlds patinava abaixo de 200 mil usuários, o Roblox terminou 2025 com 144 milhões de usuários ativos diários e uma receita de US$ 4,9 bilhões.
https://www.gamesindustry.biz/roblox-reports-significant-growth-for-2025-hitting-49bn-in-revenue
- O VRChat, por sua vez, bateu recordes de 149 mil usuários simultâneos no início de 2026.
https://vchavcha.com/en/virtual-news/vrchat-metaverse-demographics-report-2026/
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A diferença fundamental, que talvez tenha sido um fator determinante em todo esse processo, é que tanto no Roblox quanto no VRChat há, de fato, um papel mais visível da criatividade dos usuários na construção de mundos, experiências e formas de sociabilidade, o que contribui para uma sensação de maior dinamismo e diversidade (embora essas plataformas também operem sob regras corporativas, moderação e mecanismos de monetização que moldam o que pode surgir ali).
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Já no caso da Meta, o metaverso foi concebido desde o início como um projeto mais centralizado, integrado a objetivos estratégicos como controle de infraestrutura e exploração econômica, o que pode ter resultado em experiências mais padronizadas e menos abertas à experimentação espontânea, ou seja, não pareceu algo tão atrativo a ponto de que se criasse uma comunidade ali que mantivesse o projeto.
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Ter que comprar o hardware de VR da Meta como parte do pacote, por mais barato que ele seja, também não deve ter ajudado. A ‘democratização do VR’ (que ódio) é um fenômeno que simplesmente não ocorreu também.
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Por isso que dissemos no começo do vídeo que eles ofereceram algo que o dinheiro do Zuck aparentemente não conseguiu comprar (uma comunidade real), mas o fracasso do projeto da Meta também parece estar ligado a fatores mais amplos que resultaram nessa baixa aderência social, como limitações tecnológicas, custo de acesso, etc.
Conta bilionária e custo humano
- Para entender o tamanho do rombo, vamos dar uma olhada nos números. A divisão Reality Labs queimou quantidades ridiculamente obscenas de capital que poderiam ter sido investidos em necessidades sociais reais. Só em 2025, a divisão perdeu US$ 19,1 bilhões, um aumento em relação aos US$ 17,7 bilhões perdidos em 2024. No total, as perdas acumuladas desde 2021 já superam a marca dos US$ 80 bilhões.
Mesmo depois de a Meta acumular algo em torno de US$ 80 bilhões em prejuízos com o projeto, o metaverso e a realidade virtual seguem restritos a nichos — entusiastas, gamers e alguns usos corporativos. Outras plataformas, como Roblox e Fortnite, acabaram ocupando esse espaço com mais tração.
- Mas o capital que se "queima" não surge e desaparece magicamente, ele é extraído do trabalho. Enquanto Zuckerberg tentava fazer a todo custo sua palhaçada acontecer, a Meta realizou rodadas sucessivas de demissões em massa. Em março de 2026, mais centenas de funcionários foram cortados da Reality Labs e de outras divisões para financiar o novo pivô para a IA.
https://www.nytimes.com/2026/03/25/technology/meta-layoffs-ai-executives.html
- Aqui dá para ver quem paga a conta pelos delírios dos tech bros no final do dia, né (os trabalhadores, que pagam com seus empregos pela incompetência estratégica de um bilionário que tentou ditar o futuro sem ouvir os usuários e nem ninguém).
Agora a nova aposta é na IA
- Não cansada de tentar emplacar um hype, agora a Meta simplesmente abandonou todos os seus esforços com o metaverso e está redirecionando tudo para a Inteligência Artificial, com planos de gastar mais de US$ 120 bilhões em infraestrutura de IA em 2026.
https://en.ara.cat/media/zuckerberg-s-metaverse-couldn-t-go-far-without-legs_1_5684224.html
- O “fim do metaverso", na verdade o que estamos falando é do fim de uma tentativa específica de dominação totalitária do espaço digital por uma única Big Tech, e a mudança para a IA é apenas a nova fronteira da mesma batalha, que é a de quem controla os meios de produção digital e os dados da classe trabalhadora global.
- Como vimos no caso do conflito no Irã, a infraestrutura tecnológica privatizada é rapidamente militarizada. A mesma Meta que falhou no metaverso agora busca se tornar indispensável através da IA, enquanto continua a precarizar o trabalho e concentrar poder.
- Em resumo, o Metaverso do Zuck morreu porque era uma solução em busca de um problema, um brinquedo caro para um bilionário desconectado da realidade, sendo que a verdadeira inovação surge da necessidade social e da criatividade coletiva, não de anúncios corporativos em conferências de luxo.
- A tecnologia não é criada ‘de cima pra baixo ’ da mente dos CEOs, ela surge do contexto material e social da sociedade, e com muito trabalho envolvido. A tecnologia que temos, no geral é moribunda igual o Metaverso, a nossa missão é mudar a sociedade pra colocar a classe trabalhadora no centro das decisões e assim construir uma nova tecnologia.