Vamos falar sobre ‘Terras Raras’
Nos últimos meses a tema ‘Terras Raras’ tem estado na boca do povo, principalmente com o conflito EUA e China como pano de fundo. Só que o Brasil é o segundo território em quantidade desses elementos e os EUA já está botando a mão na gente. Vamos falar sobre.
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‘Terras Raras’ são 17 elementos químicos (são metais, não são terras) que geralmente a gente não chega quando estuda a tabela periódica. É o grupo dos Lantanídeos mais o Escândio e o Ítrio.
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Eles tem propriedades interessantíssimas e únicas e são necessários para tudo que é tecnologia de ponta. Por exemplo o Neodímio serve para fazer imãs “super potentes” que por sua vez são usados para fazer motores de precisão como por exemplo os de HDs ou para fazer fones e microfones.
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E obviamente um outro uso desses elementos é na construção de armas modernas como “mísseis inteligentes” (aquelas coisas que o Hoje no Mundo Militar fica tendo orgasmos quando descreve)
Quem tem essas terras raras?
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Globalmente, as reservas identificadas somam cerca de 91,9 milhões de toneladas. A China lidera o ranking com 44 milhões de toneladas em seu território.
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O Brasil aparece em segundo com 21 milhões de toneladas. Isso dá 23% do presente em todo o planeta.
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Depois vêm Índia (6,9 milhões), Austrália (5,7 milhões), Rússia (3,8 milhões) e Vietnã (3,5 milhões). Os EUA têm uma fatia pequena com cerca de 2%.
No Brasil, os depósitos estão em rochas alcalino-carbonáticas espalhadas pelo país. Os lugares mais concentrados? Araxá (MG), Tapira (MG), Poços de Caldas (MG), Catalão (GO) e Jacupiranga (SP)
Ter a mina é fácil, quero ver é processar
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Aqui vem a segunda mentira sobre o termo ‘terras raras’. Na realidade elas não são raras de verdade. Esses elementos estão presentes por toda a crosta terrestre e são bastante abundantes, principalmente se comparado com a pequena quantidade que são necessários nos processos industriais.
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Porém eles estão sempre misturados com outros compostos, geralmente no formato de óxidos. Então extrair terras raras da rocha é o "fácil". O difícil é separar os 17 elementos uns dos outros. É um processo químico intensivo que consome toneladas de ácido, água e produz uma montanha de rejeito tóxico.
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Além disso os minérios de terras raras costumam vir acompanhados de elementos radioativos como urânio e tório. A lixiviação química usada no processo torna esses metais solúveis. O lixo gerado não é só ácido como também radioativo.
- A China descobriu isso nos anos 90 e resolveu dominar a cadeia inteira. O resultado é que a China responde por cerca de 90% do refino global de terras raras. O país não vende só o minério bruto. Vende o material já separado, purificado, pronto pra virar ímã, bateria ou míssil. Muitas vezes já vende diretamente os componentes eletrônicos fabricados com o metal. O valor agregado fica para eles.
Como essa escolha da China deu muito certo
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Enquanto os EUA gastam trilhões em defesa, a cadeia de suprimentos de 90% das terras raras refinadas do mundo passa pela China.
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Em 2025, durante as ameaças tarifárias de Trump, a China respondeu restringindo as exportações de terras raras. Isso afetou fábricas de carro elétrico na Europa, produção de turbinas nos EUA e etc…
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Isso talvez tenha sido um dos fatores mais relevantes para a arregada do Trump dessa primeira guerra tarifária com a China
E por que não pode ser a gente?
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O Brasil exporta minério bruto. A China exporta produto manufaturado. É essa a diferença kkkkk
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Pra quem manda terra rara sem refinar, não tem segredo nenhum: fica com o impacto ambiental para lucrar com a venda de um commodity. O comprador pode refinar e transformar para ficar com o valor de verdade
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Outra pergunta que a gente tem que se fazer é quem realmente fica com esse lucro aqui? A resposta é as mineradoras e elites locais que controlam esses empreendimentos. Isso vai ficar mais claro mais pra frente.
Essa era a introdução, vamos pro Brasil agora…
- A câmara aprovou um projeto de lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos quase ao mesmo tempo que a única mina em operação no país foi vendida para uma empresa americana por US$ 2,8 bilhões
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), disse horas antes da aprovação que é contra a criação de uma empresa pública para o setor. A bancada do PT havia proposto a transformação da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) na "Terrabras" para gerir as reservas brasileiras. No entanto, segundo apurou a reportagem, a bancada se viu impedida pela Constituição de avançar com a proposta. Além disso, ministros do governo também foram contrários à criação de uma estatal.
https://apublica.org/2026/04/terras-raras-mineradora-em-goias-vira-negocio-bilionario/
A dona do negócio é a mineradora Serra Verde, criada pelo fundo americano privado Denham Capital, que acaba de ser adquirida por 2,8 bilhões de dólares (dos quais 300 milhões de dólares em dinheiro e o restante em ações) pela também americana USA Rare Earth, no que foi classificado por um especialista do setor à reportagem como a maior fusão e aquisição na história da indústria de terras raras.
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A própria matéria cita uma fala do Lula na Índia que expressa o desejo do Brasil não ser apenas um exportador de terras raras em seu formato bruto. Porém esse negócio não parece ir nesse sentido, pois o material será refinado e transformado nos EUA e Reino Unido.
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O que parece ser o aspecto mais importante aqui é o controle da mina e da autorização para a mineração, mais do que o uso final e refino que os EUA possam fazer nesse momento.
Dados da Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que esse movimento já está influenciando as exportações da Serra Verde. Ao longo de 2025, Minaçu exportou quase 678 toneladas de terras raras para a China e apenas 51 kg para os Estados Unidos. Já este ano, o município ainda não exportou para a China, mas, em fevereiro, enviou 2 toneladas para os EUA.
- O artigo descreve a situação da cidade de Minaçu que inclusive já passou por um ciclo parecido com a mineração de amianto e que não trouxe a prosperidade prometida para a cidade.
“No Brasil, o discurso dominante é o de que exportar a nossa riqueza traz riqueza para nós. A questão é se realmente essa riqueza é reinvestida nos setores produtivos – normalmente ela não é”, explicou Cerioli na ocasião. Segundo a pesquisadora, a aposta exclusiva na extração acaba por produzir “cidades enclaves”, apartadas do restante da economia.
“Essa característica de enclave significa que são poucos empregos, que há poucas conexões na cadeia produtiva com outros setores industriais e comerciais. Por mais que exista essa ideia de que o extrativismo produz muito emprego, a realidade mostra outra coisa”, disse ela.
Sobre o PL 2.780/2024
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O Projeto de Lei nº 2.780/2024 foi aprovado na Câmara dos Deputados em 5 de maio de 2026 . O parecer do relator, deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), foi apresentado no dia anterior, 4 de maio.
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A votação ocorreu sem que o texto tivesse sido discutido em comissões temáticas. Organizações da sociedade civil denunciaram a falta de tempo para análise:
“Dois dias é um tempo muito curto para fazer uma análise do texto, sobretudo quando o próprio parecer não está disponível”, afirmou a representante do Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração, identificada apenas por “Rayara”. A Frente, segundo ela, reúne mais de 100 organizações e comunidades afetadas pela atividade mineral. Rayara disse que a ausência do documento ( o texto do PL 2.870/24) impedia não apenas a formulação de críticas técnicas, mas também o próprio exercício do contraditório por parte da imprensa e da sociedade.
https://outraspalavras.net/outrapolitica/terras-raras-congresso-pode-votar-retrocesso-total/
Embora o projeto mencione "desenvolvimento sustentável" e crie um Certificado de Mineração de Baixo Carbono, não muda nada estrutural no licenciamento ambiental. A governança ambiental permanece nos marcos atuais, sendo tratada como "requisito de competitividade e acesso a mercados internacionais" – e não como eixo central da política mineral.
- Além disso temos uma viagem do Lula para encontrar o Trump com um tempo totalmente suspeito. Algumas semanas após a venda da Serra Verde e com a votação do PL pautada para a véspera dessa viagem.
"Eu tenho receio de que essa viagem tenha sido uma espécie de coroamento de uma série de acontecimentos nas últimas semanas envolvendo essa questão das terras raras. É um tipo de acordo que não beneficia em nada o Brasil, porque essas terras vão ser exportadas pelos Estados Unidos. O CEO dessa empresa americana já disse que esse material vai ser totalmente exportado, não vai ficar nada aqui no Brasil e é algo tão estratégico quanto o petróleo. Eu tenho receio de que isso seja o coroamento de algo que se arrasta desde o ano passado, que é a política de tarifas” – Gilberto Maringoni
E o que acontece a partir de agora?
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O PL 2.780/2024 foi aprovado na Câmara. Segue para o Senado. Ainda é possível pressionar por alterações ou por rejeição. Não teve Terrabras no PL.
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Nesse ano de eleição nós temos um candidato Flávio Bolsonaro que explicitamente fala de “parceria com os EUA para a exploração de terras raras” e nós temos o Lula que faz um discurso muito bonito, mas de novo está tentando mostrar pra burguesia que ele consegue negociar melhor com o imperialismo dos EUA.
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É sério pessoal, se eu ver algum petista dizendo “Bolsonaro foi humilahado por Trump já com o Lula o Trump disse até ‘i love you’ ” eu irei coringar
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O investimento no refino e desenvolvimento tecnológico com terras raras é um projeto dificílismo e de pelo menos 10-15 anos, porém a perspectiva é que esse material será cada vez mais estratégico para todos países no futuro e o mínimo que a gente poderia esperar é que tivéssemos uma Terrabras.
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O negócio é pressionar o Lula nesse ano de eleição pra se comprometer realmente a fazer alguma coisa nesse sentido porque do outro lado é que não vai sair nada.